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XII SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOGRAFIA
URBANA CIÊNCIA E UTOPIA: POR UMA GEOGRAFIA DO POSSÍVEL

Propor como tema central de um simpósio as relações entre aquela que chegou a ser alcunhada como ciência dos lugares e aquilo que não tem lugar soa como um disparate. Afinal, que sentido poderia ter um simpósio cuja proposta não dissocia conhecimento científico e pensamento utópico, comumente associado a um déficit de ciência?
A proposta central desta edição do Simpósio de Geografia Urbana, porém, nada tem de teológica. Tampouco busca conciliar fé e ciência. Portanto ela não exorta a seguir confiando religiosa e passivamente na crença de um futuro melhor como coroamento de um presente cientificamente controlado e dirigido. Ela não busca fortalecer o papel da ciência e da técnica para submeter o presente à visão finalista de uma história idealizada. O que ela reivindica é o saber efetivo sobre o real, sobre o movimento da história que se faz no presente, sobre as tramas e os dramas pelos quais se tecem as condições de sua existência e de sua reprodução, sobre as contradições nas quais se torcem e retorcem as capacidades humanas e se desdobra a dialética dos possíveis, se delineia e prefigura o porvir.
A proposta parte, e é parte, de uma teoria. A teoria crítica do presente, da atualidade repleta de possíveis, que não se limita a constatar, descrever e classificar fenômenos. Ela busca compreender as tendências, o movimento que se oculta e se manifesta neles e por eles. Ela não toma a atualidade como um ponto que conduzirá a um futuro traçado desde hoje como meta. Ela parte do possível, do utópico, daquilo que está contido em germe na realidade, para examinar o atual e o realizado, para reinterpretar e ressignificar passado e futuro segundo uma outra inteligibilidade do real.
No momento em que o capital cada vez mais se manifesta como uma formação que não admite nenhum exterior, reproduzindo-se em extensão e profundidade, tragando em seu favor o conjunto da vida social e, portanto, fazendo da própria urbanização um campo imprescindível para a reprodução capitalista da riqueza, não surpreende que as ciências e as técnicas encontrem-se firmemente engajadas nas estratégias de valorização do espaço, nas tarefas de modernização de diferentes realidades urbanas. Não é de hoje também que muitos geógrafos se engajam firmemente nesse fim em si mesmo, pouco ou nada preocupados em interrogar seus sentidos e finalidades.
Desde sua primeira edição em 1989, o Simpósio Nacional de Geografia Urbana caracteriza-se como evento no qual estudiosos e pesquisadores expõem e debatem o alcance e o limite de apreensão e compreensão da urbanização, os desafios e esforços para a clarificação do horizonte de métodos, teorias, conceitos e metodologias fundantes e fundamentais no qual se movimenta o pensamento em direção ao conhecimento do real.
Na busca do movimento que se oculta e se manifesta nos e pelos fenômenos, é inescapável ao pensamento pôr-se também em movimento, abandonando as rotinas que o mantêm abaixo e/ou aquém do real. Enquanto sensibilidade e consciência avançada para os pontos de mutação de uma época, enquanto força e capacidade para se colocar no ponto alto dessa época e, como conhecimento científico, informá-la sobre o horizonte das transformações nela inscritas enquanto possibilidades e impossibilidades, o pensamento não pode abrir suas asas somente ao crepúsculo.
Para realizar o novo, contido em germe no real, é imprescindível um novo modo de pensar. Elaborado pela teoria crítica, o possível concebido enquanto utopia concreta orienta o pensamento e informa a ação. Ele tem implicações práticas, concretas, estratégicas. Ele permite compreender que a industrialização (em acepção ampla, o epicentro da reprodução capitalista da riqueza) não guarda em si mesma seu sentido e finalidade. Ele exige outra racionalidade para reorientar a industrialização, suas determinações, suas forças produtivas, suas conquistas. Nessa perspectiva, ela deixa de ser uma finalidade para alcançar seu fim: um meio para a realização da sociedade urbana. A urbanização, por seu turno, deixa de ser considerada numa perspectiva eminentemente espacial, de acordo com a racionalidade advinda da industrialização.
As estratégias que buscam desenvolver a sociedade urbana não se coadunam com as representações que se limitam a propor uma urbanização melhorada pela e para a modernização. O pensamento crítico instaura o ato de acusação contra as representações que conduzem à renúncia do possível enquanto utopia concreta. Nada portanto de um imaginário abstrato, devaneante, pois se trata de abordar o espaço de maneira diferente da efetuada pelas ciências tal como consagradas, que o recortam, o fragmentam, o analisam, mas não chegam a atingir uma síntese superior ao deixar na sombra a dialética do possível-impossível constitutiva do real.
Virtual, complexo e transdisciplinar por excelência, o urbano recusa qualquer abordagem que o fragmente em domínios parciais do conhecimento disciplinar. Urge pensá-lo, entre e além das disciplinas, para construir o futuro, para nós e nossos filhos.
É o nosso convite para este Simpósio de Geografia Urbana. É a nossa esperança!

Atividades estruturantes
Palestras (de abertura e de encerramento), que deverão abordar o tema central do Simpósio;
Mesas-redondas, que deverão abordar temas específicos e correlatos ao tema central do Simpósio;
Grupos de Trabalhos, cujas propostas serão acolhidas pela Comissão Organizadora e avaliadas pela Comissão Científica.

 
 
 
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